A sucessão de visitas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Bahia, em um intervalo inferior a 30 dias, evidencia o grau de preocupação do Palácio do Planalto com o cenário político no estado — historicamente um dos principais redutos eleitorais do petista.
Em menos de um mês, Lula esteve três vezes em território baiano. A passagem mais recente ocorreu no último sábado (14), quando marcou presença no circuito Osmar (Campo Grande), durante o Carnaval de Salvador. Antes disso, participou de um evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e, duas semanas depois, retornou para as celebrações de aniversário do Partido dos Trabalhadores.
A intensificação da agenda não é casual. Levantamento do instituto Quaest, divulgado na semana passada, aponta que 49% dos entrevistados desaprovam a gestão federal, enquanto 45% aprovam o governo. O dado revela um empate técnico dentro da margem de erro, mas com tendência negativa para o presidente.
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O cenário se torna ainda mais sensível diante do indicador eleitoral: 57% dos brasileiros se declaram contrários à reeleição de Lula. O número acende o sinal de alerta no núcleo político do Planalto e reforça a necessidade de recomposição de base e presença em territórios estratégicos.
O desgaste político atinge, inclusive, o Nordeste — região que historicamente garantiu ampla vantagem eleitoral ao presidente desde o início dos anos 2000. Segundo o mesmo levantamento, a aprovação de Lula na região caiu de 67% em janeiro para 61% em fevereiro. No mesmo período, a reprovação subiu de 30% para 33%.
Embora os números ainda indiquem maioria favorável, a oscilação é interpretada por aliados como um processo gradual de erosão do capital político. Em cenários de disputa acirrada, variações percentuais nesse patamar podem representar perdas significativas em termos absolutos de votos.
A Bahia ocupa posição estratégica nesse contexto. O estado foi decisivo nas eleições presidenciais anteriores e figura entre os maiores colégios eleitorais do país. No entanto, nota publicada no início do ano pelo site Platô revelou que dirigentes petistas admitem, nos bastidores, o risco de perda de até 1 milhão de votos em comparação com o último pleito presidencial.
Parte dessa preocupação estaria associada ao desgaste do governador Jerônimo Rodrigues, aliado direto de Lula no estado. A avaliação interna é de que uma eventual queda de popularidade do governo estadual pode contaminar o desempenho do presidente em solo baiano.
Além da agenda institucional e partidária, a participação no Carnaval de Salvador possui forte simbolismo político. Trata-se de um dos maiores eventos populares do país e vitrine estratégica para contato direto com o eleitorado nordestino.
Analistas avaliam que a presença frequente de Lula na Bahia cumpre dupla função: reforçar laços com a base histórica e atuar preventivamente diante de sinais de enfraquecimento. Em um cenário de desaprovação crescente e resistência à reeleição, o presidente parece ter adotado a estratégia de ocupar presencialmente os territórios onde tradicionalmente construiu sua força política.
A repetição das visitas, portanto, vai além do calendário oficial. Trata-se de um movimento calculado de contenção de danos e preservação de capital eleitoral em um estado que sempre foi considerado porto seguro — mas que, diante dos números recentes, já não oferece garantias absolutas.

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