O Carnaval de Salvador deste ano foi marcado não apenas pela festa e pelos trios elétricos, mas também por um movimento estratégico nos bastidores da política baiana. O governador Jerônimo Rodrigues adotou uma postura mais reservada durante a folia, evitando o contato direto com o público nos circuitos tradicionais da capital.
De acordo com informações de bastidores, a cúpula do Partido dos Trabalhadores na Bahia orientou o chefe do Executivo estadual a restringir sua circulação a ambientes controlados, camarotes institucionais e agendas previamente organizadas por secretários e aliados políticos. A decisão teria como objetivo evitar manifestações contrárias e episódios de constrangimento público, como os registrados em anos anteriores, quando críticas e vaias foram direcionadas a representantes do governo em meio à multidão.
Em seu último ano de mandato e enfrentando desgaste administrativo em diversas áreas, Jerônimo teria sido aconselhado a reduzir exposições espontâneas. A estratégia incluiu a ausência em espaços simbólicos e tradicionalmente frequentados por ele, como a saída do Ilê Aiyê, o desfile dos Filhos de Gandhy e a Mudança do Garcia — eventos que historicamente funcionam como vitrines de proximidade política com a população e com movimentos culturais de forte identidade popular.
A postura contrastou com a expectativa gerada pela presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na folia baiana. Nos bastidores, havia a avaliação de que a participação do chefe do Palácio do Planalto poderia fortalecer o palanque informal do partido no estado e ajudar a conter o avanço da rejeição. No entanto, aliados admitem reservadamente que a movimentação não produziu o efeito político esperado.
Diante do cenário na capital, o governador tentou redirecionar sua agenda para eventos no interior, numa estratégia de capitalização regional da programação carnavalesca. A aposta, contudo, também enfrentou dificuldades. Em Paramirim, registros que circularam nas redes sociais mostraram uma recepção considerada esvaziada, alimentando críticas de opositores e ampliando a narrativa de enfraquecimento político.
Analistas avaliam que o distanciamento físico nos circuitos mais populares do Carnaval pode ter evitado situações constrangedoras no curto prazo, mas reforça a percepção de afastamento entre o governo e parte do eleitorado. Em um contexto pré-eleitoral e de disputa acirrada pelo protagonismo político na Bahia, a imagem pública durante eventos de grande exposição, como o Carnaval, costuma ser tratada como ativo estratégico — especialmente para quem busca recompor capital político.
Nos bastidores, interlocutores admitem que o desafio do governo será equilibrar gestão administrativa e reconstrução de narrativa junto à opinião pública, num ambiente em que redes sociais amplificam qualquer sinal de fragilidade. O Carnaval, tradicional termômetro político baiano, deixou claro que a relação entre o Palácio de Ondina e o folião já não é a mesma de anos anteriores.

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