O cenário financeiro e político da Bahia sofreu um abalo sísmico nesta quarta-feira (18). O Banco Central do Brasil decretou a liquidação extrajudicial do Banco Pleno, instituição controlada pelo banqueiro Augusto Ferreira Lima. A decisão, fundamentada no grave comprometimento da situação econômico-financeira do banco, encerra um ciclo de expansão agressiva que teve como motor principal o funcionalismo público baiano e conexões de alto escalão no governo estadual.
A medida do BC atinge diretamente o Credcesta, braço de cartões consignados que se tornou onipresente nos contracheques de milhares de servidores da Bahia. Estima-se que o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) terá de desembolsar cerca de R$ 4,9 bilhões para cobrir os salários e investimentos de mais de 160 mil credores.
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A trajetória de Augusto Lima no estado está intimamente ligada às gestões petistas. O marco inicial ocorreu em 2017, durante o governo de Rui Costa (atual Ministro da Casa Civil), quando Lima arrematou a Cesta do Povo — rede de supermercados estatal que estava em processo de privatização.
O que parecia um negócio de varejo revelou-se um "cavalo de Troia" financeiro: a compra permitiu a criação do Credcesta. O modelo de negócio, apoiado por decretos estaduais, garantia à instituição um acesso privilegiado à folha de pagamento dos servidores, dificultando, em muitos casos, que os funcionários buscassem juros menores em outros bancos (portabilidade).
Nos bastidores políticos e em investigações da Polícia Federal, a relação de Lima com o senador Jaques Wagner e o ministro Rui Costa é descrita como de extrema proximidade:
- Jaques Wagner: A licitação da Cesta do Povo foi desenhada e defendida durante sua influência direta no governo. Interlocutores apontam o senador como um dos principais articuladores do grupo empresarial no estado.
- Rui Costa: Sob sua gestão, o Credcesta consolidou um monopólio prático sobre os benefícios consignados. Críticos apontam que as normas editadas pela Secretaria de Administração do Estado (Saeb) na época pavimentaram o caminho para a lucratividade bilionária do grupo de Augusto Lima.
O Banco Pleno (antigo Banco Voiter) já operava sob a sombra da Operação Compliance Zero. A investigação apura um suposto esquema de fraudes bilionárias que teria começado no Banco Master, de onde Augusto Lima saiu para fundar seu próprio império.
A liquidação decretada hoje é vista por analistas como o desfecho de uma gestão temerária que misturou interesses públicos e privados. Enquanto o FGC inicia os trâmites para ressarcir os correntistas, o Ministério Público Federal deve intensificar as buscas por provas de favorecimento político em troca de apoio financeiro e influência.
O que acontece agora?
- Servidores Públicos: Os descontos em folha e a utilização do cartão Credcesta podem sofrer interrupções ou mudanças de fluxo.
- Investigações: A PF foca agora no rastreio do fluxo de capital entre o banco e campanhas políticas na Bahia.

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