A camisa da Seleção Brasileira já foi um dos poucos símbolos capazes de unir o país em torno de uma mesma paixão. Vestida por ricos e pobres, jovens e idosos, eleitores de diferentes correntes ideológicas, ela representava algo maior do que a política: o orgulho nacional e a paixão pelo futebol. Nos últimos anos, porém, essa realidade mudou drasticamente.
A apropriação da camisa amarela por grupos políticos ligados ao bolsonarismo transformou um símbolo esportivo em uma espécie de uniforme ideológico. O resultado foi previsível: milhões de brasileiros passaram a evitar o uso da peça por receio de serem identificados como apoiadores de uma corrente política específica. A consequência foi o esvaziamento de um patrimônio simbólico que deveria pertencer a todos os brasileiros.
Agora, quando muitos acreditavam que seria necessário um esforço coletivo para devolver a camisa ao seu significado original, surge mais um capítulo da disputa política em torno do uniforme da Seleção. Nesse domingo (07), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou uma foto em suas redes sociais usando a camisa do Brasil na Granja do Torto, em Brasília. Na legenda, escreveu: “O Brasil é dos brasileiros”.
A mensagem, por si só, parece buscar uma reconexão entre a imagem do governo e um símbolo nacional que, durante anos, foi associado quase exclusivamente à direita. No entanto, o efeito pode ser justamente o contrário. Ao entrar nessa disputa simbólica, Lula corre o risco de aprofundar ainda mais a politização da camisa da Seleção.
O problema não está em um presidente usar a camisa do Brasil. Afinal, trata-se do chefe de Estado de uma nação que tem no futebol uma de suas maiores expressões culturais. A questão está no contexto. Depois de anos em que o uniforme foi utilizado como instrumento de identificação política, qualquer tentativa de associação partidária tende a reforçar a percepção de que a camisa continua sendo um território de disputa ideológica.
Quem mais perde com isso são justamente os brasileiros que não se identificam nem com o petismo nem com o bolsonarismo. Existe uma parcela significativa da população que prefere manter distância da polarização política e que gostaria de usar a camisa da Seleção apenas pelo seu significado esportivo. Para esses cidadãos, cada novo episódio envolvendo a utilização política do uniforme contribui para aumentar o desgaste de um dos maiores símbolos nacionais.
O Brasil precisa recuperar a capacidade de preservar alguns elementos acima das disputas eleitorais. A bandeira, o hino nacional e a camisa da Seleção deveriam representar a população como um todo, e não grupos específicos. Quando símbolos nacionais passam a servir como ferramentas de marketing político, perdem sua principal função: unir pessoas diferentes em torno de uma identidade comum.
A camisa amarela não pertence à direita, à esquerda ou ao centro. Ela pertence ao povo brasileiro. Quanto mais políticos insistirem em transformá-la em instrumento de disputa ideológica, mais distante ficará o dia em que ela voltará a ser vista apenas como aquilo que sempre deveria ter sido: a camisa da Seleção Brasileira.
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