O Sul da Bahia vive dias de tensão no campo. Produtores de cacau, historicamente responsáveis por uma das cadeias produtivas mais simbólicas do estado, decidiram ir às ruas para protestar contra a queda no preço do produto e a entrada descontrolada de cacau importado. A mobilização, marcada para esta quarta-feira (28), em Ilhéus, ganhou força desde o último fim de semana, quando bloqueios foram registrados na BR-101, no distrito de Itamarati, em Ibirapitanga, e na BA-120, em Nova Ibiá. Ainda assim, o que mais chama atenção não é apenas a revolta dos produtores, mas o ensurdecedor silêncio das principais lideranças do PT na Bahia.
Nem o ministro da Casa Civil, Rui Costa, nem o governador Jerônimo Rodrigues, tampouco o senador Jaques Wagner, se manifestaram publicamente sobre o tema. E o silêncio, em política, quase nunca é neutro. Ele comunica, escolhe lados, sinaliza prioridades. Neste caso, sinaliza distanciamento de um setor que já foi estratégico para a economia e para a história do estado.
Rui Costa, hoje um dos homens fortes do governo Lula, ocupa uma posição-chave na articulação política nacional. É da Casa Civil que saem decisões estruturantes, inclusive sobre políticas agrícolas, comércio exterior e proteção de cadeias produtivas nacionais. Além disso, Rui é apontado como possível candidato ao Senado ou até ao Governo da Bahia em 2026. O silêncio diante de um movimento que mobiliza milhares de produtores no Sul do estado soa, no mínimo, como cálculo político — e, no máximo, como indiferença.
Já o governador Jerônimo Rodrigues construiu parte de sua imagem pública como defensor dos produtores rurais e do diálogo com o campo. Recentemente, fez questão de participar de eventos do MST, gesto que reforça sua ligação com movimentos sociais ligados à terra. No entanto, quando produtores de cacau — muitos pequenos e médios agricultores — se levantam contra a desvalorização do seu principal produto e contra políticas que os colocam em desvantagem, o governador opta pelo mutismo. A coerência, nesse caso, fica em xeque.
O senador Jaques Wagner, por sua vez, figura histórica do PT baiano e também integrante da cúpula do partido, vive o momento de construção de sua reeleição ao Senado. Esperava-se dele, ao menos, uma palavra de mediação, um gesto político de escuta ou de cobrança institucional. Nada. O silêncio de Wagner completa o trio e reforça a sensação de abandono sentida no campo.
É preciso dizer com clareza: o movimento dos cacauicultores não surgiu do nada. Ele é resultado de anos de dificuldades, agravadas por decisões que impactam diretamente o preço e a competitividade do cacau brasileiro. Quando produtores recorrem ao bloqueio de rodovias, é porque os canais institucionais falharam — ou foram ignorados.
O Sul da Bahia já pagou um preço alto demais com o colapso da lavoura cacaueira no passado. Ignorar um novo grito de alerta é brincar com a memória econômica, social e cultural de uma região inteira. O silêncio das principais lideranças petistas baianas, neste momento, não apenas incomoda: ele compromete discursos, expõe contradições e cobra um custo político que, cedo ou tarde, virá.
Porque, no fim das contas, quando o poder se cala diante do campo em ebulição, o silêncio deixa de ser estratégia e passa a ser omissão.
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