Desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em seu terceiro mandato, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, tem buscado protagonismo na cena política nacional. Entretanto, passados mais de três anos de governo, o que se observa é uma dificuldade crescente em transformar visibilidade em popularidade e influência positiva junto à opinião pública.
Historicamente, primeiras-damas costumam exercer um papel de apoio institucional, atuando em causas sociais, projetos humanitários e agendas que contribuam para fortalecer a imagem do governo. Algumas conseguem construir uma identidade própria e se tornam figuras públicas relevantes. Foi o caso de Michelle Bolsonaro, que, durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, conquistou espaço político, especialmente junto ao público evangélico, e desenvolveu uma base de apoiadores que permanece ativa mesmo após o término do mandato do marido.
Janja, por sua vez, parece seguir um caminho diferente. Em diversas oportunidades, ao invés de concentrar seus esforços em pautas sociais ou em ações capazes de agregar valor à administração federal, acaba ganhando destaque por declarações polêmicas e embates políticos. Um dos episódios mais repercutidos ocorreu quando dirigiu críticas ao empresário Elon Musk utilizando linguagem considerada inadequada para alguém que ocupa uma posição de tamanha representatividade institucional.
O problema não está apenas na crítica em si. O debate político é natural em qualquer democracia. A questão central é que a recorrência de manifestações controversas acaba desviando o foco das ações positivas que poderiam fortalecer sua imagem pública. Quando uma autoridade passa a ser mais lembrada pelas polêmicas do que pelas contribuições efetivas, sua capacidade de influência tende a diminuir.
Outro aspecto que chama atenção é a comparação inevitável com outras primeiras-damas da história recente. Marisa Letícia, esposa de Lula durante seus primeiros mandatos, manteve uma postura discreta, raramente se envolvendo em disputas políticas ou controvérsias públicas. Essa discrição contribuiu para que preservasse uma imagem institucional mais sólida e menos sujeita ao desgaste cotidiano da política.
Já Michelle Bolsonaro conseguiu transformar o cargo em uma plataforma de comunicação direta com segmentos importantes da sociedade. Independentemente das opiniões políticas sobre seu marido, é inegável que ela construiu uma identidade própria e alcançou protagonismo que ultrapassou os limites tradicionais da função.
Janja, ao contrário, ainda não encontrou uma narrativa capaz de unir simpatizantes e ampliar sua aceitação para além da militância mais fiel ao governo. Em alguns momentos, suas declarações têm provocado desconforto até mesmo entre setores da esquerda, que enxergam nas polêmicas um desgaste desnecessário para a gestão federal.
A política é, sobretudo, percepção. E a percepção que vem sendo construída em torno da atual primeira-dama está distante daquela normalmente associada a figuras que exercem influência positiva e institucional. Enquanto Michelle Bolsonaro consolidou uma imagem capaz de mobilizar apoiadores e gerar capital político próprio, Janja continua enfrentando dificuldades para converter exposição em aprovação.
O resultado é que, até o momento, a primeira-dama permanece mais conhecida pelas controvérsias do que por uma agenda própria de realizações. E, enquanto esse cenário persistir, a distância entre sua relevância pública e a alcançada por Michelle Bolsonaro continuará sendo um dos aspectos mais evidentes da política brasileira contemporânea.
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