O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu o tom nesta quarta-feira (08) ao tratar de um dos temas mais sensíveis da economia popular e da saúde pública atual: as casas de apostas online, as "bets". Em entrevista, o petista foi categórico: “Se depender de mim, a gente fecha as Bets. Quando a pessoa está viciada no jogo, nós temos que tratar isso como uma questão de saúde pública”.
A declaração, embora carregada de apelo emocional e moral, ecoa nos corredores do poder com um forte ruído de hipocrisia. A fala ocorre em um momento estratégico, mirando o eleitorado conservador e as famílias de baixa renda — as mais afetadas pelo vício em jogos — justamente em um período de articulações eleitorais. No entanto, os números contam uma história bem diferente daquela dita nos microfones.
Dificilmente o governo Lula abriria mão de uma galinha dos ovos de ouro que ele mesmo ajudou a chocar. Sob a gestão do ministro Fernando Haddad, o Ministério da Fazenda não apenas regulamentou o setor, como transformou a jogatina em um pilar de sustentação para as metas fiscais.
Somente em 2025, o governo Lula lucrou cerca de R$ 3,8 bilhões entraram nos cofres públicos apenas no primeiro semestre, após um 2024 marcado pela arrecadação bilionária com as outorgas de licenciamento (R$ 1,5 bilhão). Para 2026, o apetite é ainda maior, com previsões de arrecadação que ajudam a fechar as contas de um orçamento sempre no limite.
Ao dizer que "fecharia as bets", Lula ignora que sua própria base parlamentar e sua equipe econômica desenharam a Lei 14.790/2023, que taxa as empresas em 12% sobre o faturamento bruto e os apostadores em 15% sobre os prêmios.
A pergunta que fica é: se o vício é, de fato, uma questão de saúde pública tão urgente, por que o governo priorizou a arrecadação antes de implementar mecanismos rígidos de controle social?
A fala presidencial soa oportuna para o palanque, mas esbarra no pragmatismo do caixa. Com quase R$ 10 bilhões rendendo anualmente ao Tesouro, a ameaça de "acabar com as bets" parece ser mais uma peça de marketing político do que uma intenção real de governo. Afinal, no xadrez de Brasília, o lucro recorde com o imposto sobre o vício alheio parece falar muito mais alto do que a preocupação com o bem-estar da população.
Enquanto Lula promete o fim do jogo nas entrevistas, a máquina pública segue apostando alto na continuidade da jogatina para manter suas contas no azul.

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