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Casas Bahia fecha 75% das lojas em Salvador, demite mais de 300 e crise acende alerta no varejo baiano

Das 16 unidades existentes na capital, apenas quatro permanecem abertas, segundo sindicato; gigante varejista tenta reorganizar R$ 17,3 bilhões em dívidas por meio de recuperação judicial

Por Redação Diário Paralelo5 min de leitura
Casas Bahia fecha 75% das lojas em Salvador, demite mais de 300 e crise acende alerta no varejo baiano

A crise enfrentada por uma das marcas mais conhecidas do varejo brasileiro atingiu Salvador com força. Segundo o Sindicato dos Comerciários da capital baiana, o Grupo Casas Bahia fechou 12 das 16 lojas que mantinha na cidade e demitiu mais de 300 trabalhadores. Os desligamentos ocorreram na última sexta-feira (14), em meio a uma profunda reestruturação financeira da companhia.

Com os encerramentos, conforme o levantamento divulgado pela entidade sindical, apenas quatro unidades permanecem abertas em Salvador: Calçada, Cajazeiras, Itapuã e Pau da Lima. Isso significa que, tomando como base os números apresentados pelo sindicato, a Casas Bahia eliminou de uma só vez 75% de sua presença física na capital baiana.

Outro detalhe evidencia a dimensão da mudança: as lojas instaladas em shopping centers foram atingidas pelo corte. Unidades em centros comerciais tradicionais da capital deixaram de funcionar, enquanto os quatro pontos que permaneceram estão localizados fora dos grandes shoppings.

O Sindicato dos Comerciários afirma que trabalhadores foram surpreendidos pelas demissões e pelo fechamento das lojas sem comunicação prévia. A entidade anunciou que acompanha os desligamentos juridicamente e cobra da companhia esclarecimentos sobre os critérios adotados, as condições das rescisões e o cumprimento das obrigações trabalhistas.

O presidente do sindicato, Renato Ezequiel, criticou a maneira como o processo teria sido conduzido e afirmou que os empregados não poderiam ser reduzidos a números de uma estratégia de corte de custos. A entidade também anunciou mobilização para discutir a situação dos profissionais atingidos.

Até as primeiras publicações sobre o caso, a Casas Bahia não havia apresentado um detalhamento específico sobre os fechamentos e demissões registrados em Salvador.

O Grupo Casas Bahia decidiu recorrer à recuperação judicial, processo formalizado e disponibilizado pela própria companhia em sua área de Relações com Investidores. O pedido envolve aproximadamente R$ 17,3 bilhões em dívidas e busca permitir a reorganização financeira da varejista enquanto suas atividades continuam sendo mantidas.

Dentro da segunda fase de seu plano de transformação, a empresa anunciou o fechamento de 298 lojas, aproximadamente 29% da rede, direcionando a operação para canais, categorias e unidades consideradas capazes de oferecer maior rentabilidade e geração de caixa.

Salvador, entretanto, parece ter sofrido proporcionalmente um corte ainda mais agressivo: enquanto o enxugamento nacional alcança cerca de três em cada dez lojas, o levantamento sindical aponta o fechamento de três em cada quatro unidades existentes na capital baiana.

Prejuízo de R$ 10,1 bilhões exige uma leitura cuidadosa

Pouco antes do pedido de recuperação judicial, a companhia divulgou um número que provocou forte repercussão: prejuízo líquido de R$ 10,117 bilhões no segundo trimestre de 2026.

Mas há uma diferença importante.

Dos R$ 10,1 bilhões, aproximadamente R$ 9,1 bilhões correspondem a efeitos contábeis não recorrentes e sem impacto no caixa naquele trimestre, relacionados, entre outros fatores, a baixas de ativos, revisão de créditos tributários e ao redimensionamento das operações.

Isso, porém, não significa que a situação financeira seja apenas um problema contábil.

Retirados esses efeitos extraordinários, a Casas Bahia ainda apresentou prejuízo ajustado de R$ 978 milhões, contra R$ 555 milhões no mesmo período de 2025. Ou seja: mesmo excluindo o impacto excepcional de bilhões de reais, a operação continuou deficitária e o prejuízo ajustado aumentou significativamente.

O pedido de recuperação judicial, o fechamento de centenas de lojas e a redução do quadro de funcionários demonstram que a companhia enfrenta um problema concreto de estrutura financeira e necessidade de preservação de caixa.

Uma mudança histórica no varejo de Salvador

Para Salvador, o episódio ultrapassa os números de uma empresa.

A Casas Bahia construiu durante décadas uma forte presença no varejo popular brasileiro, especialmente nos segmentos de móveis, eletrodomésticos e eletrônicos. O desaparecimento simultâneo da marca de vários dos principais centros comerciais da capital representa uma mudança importante na paisagem comercial da cidade.

A concentração das quatro lojas remanescentes em pontos fora dos grandes shopping centers também pode revelar uma transformação no próprio modelo de negócio. É uma indicação — ainda não confirmada formalmente pela companhia como critério específico para Salvador — de que a empresa está priorizando operações físicas que consigam funcionar com uma estrutura de custos compatível com a nova realidade financeira.

Ao mesmo tempo, o comércio eletrônico ganha cada vez mais peso na estratégia do grupo. A consequência é uma companhia menor fisicamente, mais seletiva na escolha dos pontos de venda e pressionada a encontrar rentabilidade depois de sucessivos prejuízos.

Recuperação judicial não é falência

Apesar da gravidade da situação, o pedido de recuperação judicial não significa que as Casas Bahia tenham falido ou estejam encerrando todas as atividades.

O instrumento existe justamente para que empresas em dificuldades possam reorganizar dívidas, negociar condições com credores e tentar preservar uma operação economicamente viável. A companhia continua funcionando enquanto o processo avança na Justiça.

A grande questão passa a ser outra: qual será o tamanho das Casas Bahia quando essa reestruturação terminar?

Em Salvador, uma parte dessa resposta já começou a aparecer nas portas fechadas. Se os números do sindicato forem confirmados integralmente pela companhia, uma rede que possuía 16 pontos físicos na cidade terá sido reduzida a apenas quatro em questão de dias — deixando centenas de trabalhadores sem emprego e retirando a tradicional bandeira varejista de alguns dos principais centros comerciais da capital.

Para uma empresa que durante décadas fez da presença física uma de suas maiores forças, a redução é mais do que um corte de despesas. É o retrato de uma transformação profunda — e de uma das fases mais delicadas da história recente das Casas Bahia.

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