Enquanto milhares de baianos encerraram o ano convivendo com o medo da violência, a precariedade da saúde pública e a sensação de abandono por parte do Estado, o secretário de Relações Institucionais da Bahia, Adolpho Loyola, decidiu brindar a chegada de 2026 em Paris, na França. A escolha do destino, por si só, não seria um problema — não fosse Loyola um dos homens mais poderosos e influentes do governo Jerônimo Rodrigues, principal articulador político do Palácio de Ondina e elo direto entre prefeitos do interior e o governador.
O gesto carrega um simbolismo que vai muito além de uma simples viagem internacional. Em um momento em que a Bahia enfrenta índices alarmantes de insegurança pública, hospitais superlotados, falta de regulação e um sentimento generalizado de que o governo perdeu o controle de áreas essenciais, o principal operador político do Estado opta pelo luxo europeu, distante — geográfica e simbolicamente — da dura realidade enfrentada pela população.
Adolpho Loyola não é um secretário qualquer. É o braço direito de Jerônimo Rodrigues, o homem encarregado de “apagar incêndios”, alinhar prefeitos, costurar apoios e sustentar politicamente um governo que entra em seu último ano sob forte desgaste. As pesquisas indicam altos índices de rejeição ao governador, que sequer tem sua candidatura à reeleição assegurada. Dentro do próprio PT, cresce a resistência ao seu nome, com uma ala significativa defendendo o ministro da Casa Civil, Rui Costa, como possível substituto na disputa de 2026.
Diante desse cenário de instabilidade política e crise administrativa, o mínimo esperado de um articulador institucional seria presença, diálogo e sensibilidade. Mas o que se vê é o oposto: ausência e desconexão. A viagem a Paris reforça a percepção de que há um abismo entre a cúpula do governo e a vida real dos baianos.
Não é a primeira vez que Loyola protagoniza movimentos questionáveis. Meses atrás, tentou emplacar a narrativa — posteriormente desmentida — de que ACM Neto não seria candidato ao governo do Estado, uma tentativa clara de confundir o cenário político e desmobilizar a oposição. Agora, sua ida à Europa expõe algo ainda mais grave: a naturalização do privilégio em meio ao colapso de serviços públicos essenciais.
A mensagem transmitida é clara e preocupante. Para a cúpula do PT na Bahia, não importa se o Estado sangra, se mães esperam meses por uma vaga em UTI ou se a população vive refém do crime organizado. O que parece importar é a manutenção do poder, o conforto pessoal e a vida de luxo proporcionada pelos cargos públicos.
Paris pode até ser uma cidade-luz. Mas, para os baianos, o que se vê é um governo cada vez mais distante, opaco e alheio às próprias responsabilidades.

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