A decisão do PT da Bahia de reordenar sua estratégia política mirando a disputa de 2026 voltou a provocar forte desgaste com partidos aliados e a expor contradições internas da legenda. O chamado projeto “puro-sangue”, que prioriza quadros exclusivamente petistas nos principais espaços da chapa majoritária, tem levado ao descarte de nomes centrais que ajudaram a garantir a vitória do grupo governista nas eleições de 2022.
Entre os atingidos estão o senador Ângelo Coronel (PSD) e o vice-governador Geraldo Jr. (MDB). Ambos ocuparam posições estratégicas na última eleição e tiveram papel relevante na construção da aliança que elegeu Jerônimo Rodrigues ao Palácio de Ondina. Agora, no entanto, passaram a ser tratados nos bastidores como figuras secundárias no novo arranjo político do PT, o que esvazia, na prática, o discurso histórico da sigla de valorização e lealdade aos aliados.
A movimentação não é inédita. O “apagamento” de parceiros políticos remete a episódios anteriores que deixaram marcas profundas na relação do PT com outras legendas do campo governista. Em 2018, Lídice da Mata (PSB) foi retirada da chapa majoritária, apesar de integrar o núcleo duro de apoio ao projeto petista no estado. Já em 2022, foi a vez do deputado João Leão (PP), então vice-governador, ser descartado às vésperas da eleição, rompimento que levou o PP a deixar a base do governo.
Nos bastidores, dirigentes e aliados apontam que as decisões estratégicas continuam concentradas nas mãos da dupla considerada intocável dentro do PT baiano: o senador Jaques Wagner e o ministro da Casa Civil, Rui Costa. Ambos mantêm forte influência sobre os rumos do partido no estado e sobre a definição das chapas eleitorais.
O protagonismo de Rui Costa, em especial, ganha contornos nacionais. Integrante do núcleo político do governo Lula, o ex-governador da Bahia é citado como um dos nomes que miram a sucessão presidencial no médio prazo. Ao lado do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, Rui desponta como potencial herdeiro do projeto lulista, o que reforça a leitura de que o “puro-sangue” na Bahia também atende a uma lógica de fortalecimento interno do PT no cenário nacional.
Enquanto isso, o efeito colateral é o desgaste com partidos aliados, que passam a questionar a confiabilidade do PT como parceiro político. A estratégia, embora fortaleça o controle da sigla sobre o projeto de poder, reacende críticas antigas e amplia a percepção de que, na prática, alianças no campo petista têm prazo de validade definido pelos interesses do próprio partido.

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