Durante a cerimônia de posse do novo ministro da Justiça, realizada nessa quinta-feira (15), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a adotar um discurso duro e causou repercussão ao afirmar que “o Estado não pode ser derrotado por organizações empresariais e religiosas”. A declaração foi interpretada como mais um capítulo da queda de braço do governo federal com setores do empresariado brasileiro e com instituições religiosas, além de reforçar a visão do petista de que as diretrizes do seu governo devem prevalecer acima de qualquer outro interesse no país.
A fala ocorreu no contexto da defesa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, uma das principais apostas do Palácio do Planalto desde 2025. O texto, no entanto, tem enfrentado forte resistência no Congresso Nacional, em governos estaduais, em entidades da sociedade civil e também em segmentos ligados à iniciativa privada e às igrejas, que veem riscos de concentração excessiva de poder na União.
Segundo Lula, a PEC é fundamental para que o Estado recupere autoridade diante do avanço do crime organizado. O presidente argumenta que, sem mudanças estruturais no modelo de segurança pública, o país continuará perdendo territórios para facções criminosas. “Não é possível que o Estado brasileiro seja menor do que interesses organizados”, afirmou o chefe do Executivo, sem citar nominalmente entidades ou lideranças.
Nos bastidores, aliados reconhecem que o tom adotado pelo presidente aprofunda o desgaste político com setores estratégicos, sobretudo em um ano eleitoral. A PEC da Segurança Pública, ao lado do chamado PL Antifacção, compõe o núcleo central da agenda do governo para 2026 na área de combate ao crime organizado. A estratégia do Planalto é apresentar as propostas como respostas diretas ao aumento da violência e ao fortalecimento das facções, tema sensível para o eleitorado.
Críticos, porém, avaliam que o discurso de confronto pode dificultar ainda mais a tramitação das matérias. Parlamentares de oposição e até de partidos do chamado “centrão” afirmam que o governo tem falhado na construção de consensos e alertam para o risco de o Executivo tentar impor mudanças constitucionais sem o devido diálogo com a sociedade.
A reação de representantes do empresariado e de lideranças religiosas também não demorou. Reservadamente, eles veem a declaração como um ataque direto e apontam preocupação com a postura do governo frente à liberdade econômica e à atuação das organizações religiosas no país.
Com a resistência crescente e um cenário político cada vez mais polarizado, a PEC da Segurança Pública se consolida não apenas como um projeto legislativo, mas como um dos principais símbolos da disputa política que deve marcar o calendário eleitoral deste ano.

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