Saúde
Aos 85 anos, idoso vende pudins para pagar exames e caso expõe dificuldade de acesso à saúde no Brasil
História que viralizou em Pernambuco chama atenção não apenas pela solidariedade recebida pelo idoso, mas por uma realidade incômoda: chegar à terceira idade e ainda precisar trabalhar para conseguir pagar procedimentos médicos

Uma história que ganhou repercussão nas redes sociais em Pernambuco vai muito além da cena comovente de um idoso trabalhando e da corrente de solidariedade que surgiu posteriormente. Aos 85 anos de idade, um homem precisou continuar trabalhando, vendendo pudins na praia, com um objetivo que deveria provocar reflexão: conseguir dinheiro para pagar exames médicos.
O caso viralizou depois que imagens do idoso trabalhando começaram a circular. A repercussão mobilizou pessoas que decidiram ajudá-lo, mudando temporariamente a situação enfrentada por ele.
A solidariedade é importante. Mas ela também expõe uma pergunta desconfortável: por que um homem de 85 anos precisa vender pudins para conseguir realizar exames de saúde?
Mais do que uma história de superação, o episódio coloca em discussão o acesso efetivo da população — principalmente dos idosos — a consultas, diagnósticos e procedimentos médicos.
Em Pernambuco, a própria Secretaria Estadual de Saúde informa que consultas e exames disponibilizados pela rede pública são gratuitos aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). O acesso, entretanto, passa pela rede municipal e, em determinados procedimentos, pelo sistema de regulação estadual. A Secretaria também reconhece que o período de espera depende do tipo de exame e da região onde vive o paciente.
O problema entre aquilo que existe formalmente e aquilo que chega efetivamente ao cidadão aparece também nos números.
No Recife, por exemplo, a prefeitura informou em março deste ano que havia mais de 100 mil solicitações de ultrassonografias no sistema municipal. Segundo a própria gestão, o tempo de espera em determinados casos poderia ultrapassar 130 dias. A demanda levou o município a criar o programa Exame Mais Perto, destinado justamente a ampliar a realização desses procedimentos.
Os dados não significam, necessariamente, que essa tenha sido exatamente a situação vivenciada pelo idoso que vende pudins. Não há elementos suficientes para atribuir sua dificuldade a uma unidade, prefeitura ou órgão específico.
O episódio, entretanto, revela uma realidade impossível de ignorar: quando um paciente de 85 anos precisa buscar renda para custear exames médicos, alguma barreira entre o direito à saúde e o acesso concreto ao serviço está presente.
E nesse aspecto a idade torna a situação ainda mais emblemática.
Trabalhar aos 85 anos por vontade própria, disposição ou realização pessoal é uma escolha que merece respeito. Precisar trabalhar aos 85 anos para pagar cuidados médicos básicos é uma realidade completamente diferente.
O problema também não pode ser encoberto pela repercussão positiva da campanha de ajuda. A mobilização popular resolveu — ou ao menos amenizou — a necessidade daquele homem. Mas políticas públicas não podem depender de um vídeo viralizar.
Milhares de idosos não aparecem nas redes sociais, não encontram alguém disposto a gravar suas histórias e não recebem doações.
São pessoas que enfrentam silenciosamente filas, limitações financeiras e dificuldades para realizar procedimentos necessários ao diagnóstico e acompanhamento da própria saúde.
A história do vendedor de pudins pode terminar com solidariedade. Mas a imagem de um homem de 85 anos trabalhando para pagar exames médicos deveria deixar uma pergunta para o poder público e para a sociedade:
quantos outros idosos enfrentam a mesma dificuldade sem que ninguém esteja filmando?
Matérias relacionadas

Saúde
Saúde em Ação leva atendimento médico às comunidades rurais de Presidente Tancredo Neves

Saúde
2ª edição do Quem Ama Cuida leva serviços, saúde e acolhimento à comunidade do Alto Alegre, em Teolândia

Saúde
Programa Quem Ama Cuida leva serviços e atendimento à comunidade do São Paulinho, em Teolândia

Saúde
