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Possível derrota de Lula pode provocar enfraquecimento histórico do PT e expor falta de substituto do líder petista

Análise da revista norte-americana The New Yorker aponta que eleição de domingo pode marcar o fim da trajetória política de Lula; após décadas de protagonismo, Partido dos Trabalhadores enfrenta dificuldades para construir uma liderança capaz de manter seu legado.

Por Redação Diário ParaleloAtualizado em 22 de outubro de 2026 às 12:335 min de leitura
Possível derrota para Flávio Bolsonaro marcará fim de carreira política de Lula.

A três dias do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo (25), o Partido dos Trabalhadores (PT) enfrenta um dos momentos mais delicados de sua história. A possibilidade de derrota do presidente Lula para o senador Flávio Bolsonaro (PL) ameaça não apenas encerrar um ciclo político, mas também aprofundar uma crise de liderança que o partido tem adiado ao longo dos últimos anos.

Em artigo publicado na quarta-feira (21), intitulado Lula's Last Dance (A última dança de Lula), a revista norte-americana The New Yorker avalia que o presidente brasileiro pode estar diante de sua última disputa eleitoral. A análise, assinada pelo jornalista Ishaan Tharoor, apresenta Flávio Bolsonaro como favorito e coloca o Brasil no contexto de fortalecimento de movimentos conservadores na América Latina.

O cenário encontra respaldo nos levantamentos eleitorais mais recentes. Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula em 16 das 17 pesquisas nacionais consideradas. Embora parte das diferenças esteja dentro das margens de erro, os números indicam uma situação preocupante para a candidatura petista.

No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Flávio conquistou 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula recebeu 45,16%. A diferença colocou o atual presidente na posição de tentar uma virada eleitoral em um país marcado pela polarização política.

Mais do que uma eventual derrota nas urnas, o principal problema para o Partido dos Trabalhadores pode estar no futuro de sua própria liderança.

Desde sua fundação, em 1980, o PT consolidou sua identidade política em torno de Lula. Foi ele quem transformou o partido em uma das maiores forças eleitorais do Brasil, conquistou a Presidência em 2002, foi reeleito em 2006 e retornou ao Palácio do Planalto após vencer Jair Bolsonaro em 2022.

Entretanto, essa trajetória de protagonismo também expôs uma fragilidade: a dificuldade do partido em construir novas lideranças nacionais com capacidade de mobilização popular semelhante à de seu principal representante.

Aos 80 anos, Lula permanece como a figura mais influente do PT. O problema é que, passadas mais de quatro décadas de vida partidária, a legenda ainda não apresenta um sucessor natural com o mesmo alcance político e eleitoral.

Fernando Haddad, considerado durante anos uma das principais apostas para herdar o espaço ocupado pelo presidente, acumula derrotas que colocam em dúvida sua viabilidade eleitoral. Em 2018, foi derrotado na disputa presidencial por Jair Bolsonaro. Em 2022, perdeu a eleição para o governo de São Paulo e, neste ano, voltou a ser derrotado por Tarcísio de Freitas, ainda no primeiro turno.

O resultado representa sua quarta derrota eleitoral consecutiva e enfraquece o projeto de transformá-lo no principal representante nacional do petismo.

Outros nomes, como Camilo Santana, Rui Costa e Rafael Fonteles, aparecem entre as alternativas consideradas dentro do partido. Embora tenham trajetórias relevantes, especialmente no Nordeste, nenhum deles demonstrou até agora possuir projeção nacional comparável à de Lula.

Esse cenário revela que o PT possui quadros políticos experientes, mas ainda carece de uma liderança capaz de reunir, simultaneamente, reconhecimento nacional, capacidade de articulação, identificação popular e força eleitoral.

Outro aspecto destacado pela The New Yorker é a dificuldade de Lula em estabelecer uma conexão mais ampla com transformações recentes da sociedade brasileira.

O presidente construiu sua trajetória política a partir do movimento sindical e da defesa dos trabalhadores organizados, especialmente nas grandes indústrias. Entretanto, o mercado de trabalho brasileiro passou por profundas mudanças, com o crescimento do empreendedorismo individual, da informalidade e dos profissionais vinculados a plataformas digitais.

Na avaliação do articulista, a linguagem política tradicional de Lula encontra dificuldades para dialogar com parte dessa nova realidade.

A revista também destaca preocupações da população com o custo de vida, a criminalidade e as perspectivas econômicas, fatores que ajudam a explicar a resistência de parte dos eleitores à continuidade do atual governo.

Para o PT, o desafio ultrapassa a escolha de um novo candidato. Será necessário atualizar seu discurso, reconstruir pontes com diferentes segmentos sociais e apresentar propostas capazes de conquistar eleitores que já não se identificam com a narrativa histórica do partido.

Caso Flávio Bolsonaro confirme nas urnas o favoritismo apontado por parte das pesquisas, as consequências poderão ultrapassar a perda do comando do governo federal.

Uma derrota de Lula pode acelerar disputas internas pelo controle do PT, diminuir sua capacidade de articulação nacional e abrir espaço para que outras legendas de esquerda e centro-esquerda reivindiquem maior protagonismo político.

Partidos como PSB, PSOL e PDT poderão participar mais ativamente da discussão sobre os rumos desse campo ideológico, sobretudo se o PT não conseguir construir uma liderança capaz de unificar suas diferentes correntes.

Isso não significa, necessariamente, o desaparecimento ou a irrelevância do Partido dos Trabalhadores. A legenda ainda possui organização nacional, representação parlamentar, governos estaduais e uma base eleitoral significativa.

O risco maior está na perda gradual de sua condição de principal referência política da esquerda brasileira, especialmente em uma eventual transição sem o protagonismo direto de Lula.

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