Política
Lula sinaliza que procurará Trump em tentativa de conter crise entre Brasil e Estados Unidos
Presidente pretende abrir novo canal direto com o governo norte-americano após negociações técnicas não impedirem tarifas adicionais sobre produtos brasileiros

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou a aliados que pretende procurar o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na próxima semana, numa tentativa de reduzir a tensão política e comercial entre os dois países.
Ainda não foi informado se o contato ocorrerá por telefone, carta ou mediante a articulação de uma nova reunião. Considerando o calendário, a iniciativa deverá acontecer entre os dias 10 e 16 de agosto.
O movimento representa uma retomada da diplomacia presidencial depois de meses de negociações conduzidas principalmente por ministros e equipes técnicas. As tratativas, entretanto, não conseguiram impedir a adoção de novas barreiras comerciais contra produtos brasileiros.
Em maio deste ano, Lula esteve em Washington e se reuniu por mais de três horas com Trump na Casa Branca. Ao término do encontro, os dois presidentes anunciaram a criação de um grupo de trabalho e deram aos ministros um prazo aproximado de 30 dias para a apresentação de uma proposta destinada a resolver as divergências comerciais.
Na ocasião, Lula afirmou que os dois países deveriam analisar os argumentos apresentados e que o lado considerado equivocado precisaria ceder. Apesar do tom considerado positivo após a reunião, as conversas não resultaram em um acordo definitivo.
Tarifas atingem exportações brasileiras
No dia 15 de julho, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, conhecido pela sigla USTR, anunciou uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos importados do Brasil.
O governo norte-americano justificou a medida com base numa investigação aberta pela Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos. Washington apontou divergências relacionadas ao comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, tarifas sobre o etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal.
A administração brasileira contesta parte das acusações e sustenta que instrumentos comerciais unilaterais não devem ser utilizados para pressionar decisões soberanas do país.
Poucos dias depois, em 23 de julho, o governo Trump anunciou outra sobretaxa, desta vez de 12,5%, vinculada a uma investigação envolvendo dezenas de economias e suas políticas de proibição à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.
De acordo com levantamento divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, as medidas anunciadas em julho alcançam, juntas, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano. Outros 52,7% permanecem sem tarifas adicionais específicas ou setoriais.
O governo brasileiro também lançou medidas para apoiar empresas atingidas, ampliar linhas de crédito e buscar novos destinos para os produtos prejudicados pelas barreiras comerciais.
Diálogo direto pode destravar negociações
A avaliação entre integrantes do governo é que uma conversa entre Lula e Trump poderá produzir resultados que não foram alcançados pelas equipes técnicas.
Trump costuma concentrar negociações importantes em contatos pessoais com chefes de Estado. Por isso, uma intervenção direta de Lula poderia abrir espaço para a retirada de produtos da lista de sobretaxas, a criação de cotas de exportação ou a celebração de acordos específicos envolvendo setores estratégicos.
O contato, no entanto, não significa necessariamente que as tarifas serão suspensas. Em comunicado oficial, o governo norte-americano afirmou que a decisão de aplicar a taxa de 25% foi tomada depois de uma investigação de aproximadamente um ano, duas audiências públicas, mais de 360 manifestações e negociações com autoridades brasileiras.
Conversa acontece sob pressão eleitoral
A eventual aproximação ocorre em pleno período eleitoral brasileiro. Lula teve sua candidatura à reeleição oficializada pelo Partido dos Trabalhadores no último domingo (2), enquanto o senador Flávio Bolsonaro deverá representar o principal campo de oposição.
Integrantes do governo Trump já manifestaram simpatia pela candidatura bolsonarista, aumentando a preocupação do Palácio do Planalto com possíveis interferências externas no processo eleitoral brasileiro. Durante o lançamento da candidatura, Lula reforçou o discurso de proteção da soberania nacional e afirmou que recursos estratégicos do país não serão entregues a interesses estrangeiros.
Nesse ambiente, o presidente brasileiro precisará equilibrar firmeza política e pragmatismo econômico. Uma postura excessivamente confrontadora poderia prolongar as dificuldades enfrentadas por exportadores. Por outro lado, qualquer concessão considerada desproporcional poderá ser explorada por adversários durante a campanha.
O possível contato com Trump será, portanto, mais do que uma conversa comercial. Também será um teste para a capacidade de Lula de preservar os interesses econômicos do Brasil sem abandonar o discurso de defesa da soberania que passou a ocupar posição central em sua campanha.
O resultado da iniciativa não deverá ser medido apenas pela realização de um telefonema ou por uma eventual fotografia entre os dois presidentes. O principal indicador será a obtenção de avanços concretos para os setores brasileiros atingidos pelas tarifas e a redução da instabilidade nas relações entre Brasília e Washington.
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