Política
Foto com Cunha e Valdemiro expõe aposta de Flávio Bolsonaro no voto evangélico, mas traz risco político
Registro aproxima presidenciável de personagens influentes nos meios político e religioso, mas também carrega um passivo de imagem capaz de ser explorado pelos adversários durante a campanha

Um foto publicada pelo ex-deputado Eduardo Cunha chama atenção não apenas pelos personagens reunidos, mas principalmente pelo simbolismo político que carrega em pleno ano eleitoral. O registro reúne o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ao lado do próprio Cunha e do apóstolo Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus.
Ex-presidente da Câmara e personagem central da política brasileira na década passada, Cunha permanece associado no imaginário nacional aos escândalos investigados pela Operação Lava Jato. Mais recentemente, voltou ao centro do noticiário: em junho deste ano, o Supremo Tribunal Federal decidiu retomar uma ação penal na qual ele é acusado de corrupção relacionada a supostas vantagens indevidas da empreiteira OAS.
Em julho, o ministro Flávio Dino, do STF, determinou ainda o bloqueio de R$ 6,15 milhões do ex-deputado durante uma investigação sobre suspeitas de direcionamento irregular de emendas parlamentares. A defesa de Cunha nega irregularidades e afirma que houve apenas interlocução política legítima. A Procuradoria-Geral da República discordou do bloqueio patrimonial, embora tenha defendido a continuidade das investigações.
Flávio Bolsonaro e Cunha, aliás, já haviam se encontrado publicamente em junho, durante uma agenda em Belo Horizonte. Na ocasião, Cunha publicou o encontro nas redes sociais e definiu Flávio como liderança do campo conservador na eleição de 2026.
Politicamente, portanto, Cunha não é apenas um ex-deputado. É um operador experiente, com trânsito partidário, conhecimento do Congresso e capacidade histórica de articulação. Esse capital pode ter utilidade em uma campanha presidencial.
Para uma candidatura que precisa convencer eleitores para além do bolsonarismo mais fiel, aparecer próximo de um personagem ainda fortemente relacionado ao período mais turbulento da Lava Jato oferece aos adversários uma narrativa praticamente pronta: a de questionar eventual discurso de renovação ou combate à corrupção apresentado pela campanha.
Também no registro aparece Valdemiro Santiago, fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus. O apóstolo construiu ao longo das últimas décadas uma extensa presença religiosa e midiática. Para Flávio Bolsonaro, que tem entre os evangélicos um dos segmentos mais importantes de sua candidatura, aproximar-se de lideranças religiosas pode significar acesso a uma rede eleitoral extremamente relevante.
Levantamento publicado pelo UOL em 2024 identificou pelo menos 686 ações de cobrança contra a Igreja Mundial somente no estado de São Paulo, grande parte envolvendo aluguéis de templos. Reportagens também registraram decisões judiciais relacionadas à penhora de bens e recursos da denominação. A igreja e Valdemiro têm contestado judicialmente diferentes acusações e sustentado, entre outros pontos, a separação entre o patrimônio pessoal do religioso e o da instituição.
O líder religioso também ganhou repercussão por campanhas para arrecadar grandes quantias entre os fiéis. Em 2023, por exemplo, utilizou sua programação religiosa para pedir a mobilização dos seguidores com o objetivo de chegar a R$ 10 milhões, segundo reportagem do UOL, em meio a problemas financeiros envolvendo funcionários da emissora ligada ao grupo.
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