Tradicionalmente fora do centro das disputas políticas da Câmara, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher passou a concentrar um conflito com potencial de impacto eleitoral após a eleição da deputada Erika Hilton (Psol-SP) para a presidência do colegiado. Parlamentares de partidos de esquerda avaliam que a controvérsia vem sendo explorada pela oposição em um momento importante do calendário político, com potencial de atingir o eleitorado feminino, considerado estratégico para a disputa presidencial.
Integrantes do campo governista, nessa esteira, têm adotado cautela diante da escalada do embate, evitando ampliar a controvérsia.
Primeira mulher trans a ocupar o cargo, Hilton assumiu sob contestação de parlamentares da oposição, que passaram a dar centralidade ao tema inclusive nas redes sociais. O principal ponto de divergência envolve questionamentos sobre o gênero da deputada. Parlamentares de direita defendem que ela não teria “legitimidade” para presidir a comissão, argumento rejeitado por aliados, que classificam as críticas como discriminatórias.
A avaliação sobre o impacto eleitoral ocorre em um cenário de oscilação na aprovação ao governo entre mulheres. Levantamento da Quaest divulgado em março mostrou aumento da desaprovação do governo nesse segmento, enquanto a aprovação recuou em relação aos meses anteriores.
Desde a escolha de Hilton para liderar o colegiado, marcada por votos em branco em protesto, deputadas da oposição intensificaram a contestação. Após a primeira sessão presidida pela deputada, o grupo anunciou a apresentação de recurso para tentar anular a eleição e uma representação no Conselho de Ética da Câmara.
Em coletiva no Salão Verde, parlamentares exibiram camisetas com frases como “não somos imbecis” e “não somos esgoto”, em referência a uma publicação de Hilton nas redes sociais após assumir o cargo.
Na ocasião, a deputada afirmou que não se importava com a opinião de “transfóbicos e imbecis” e disse que críticos poderiam “espernear” e “latir”. Durante a sessão, ela afirmou que a declaração se referia a ataques recebidos na internet, e não a parlamentares.
O embate também avançou para o campo institucional. O líder da oposição, deputado Cabo Gilberto (PL-PB), apresentou projeto para restringir a presidência da comissão a deputadas cisgênero, excluindo a possibilidade de escolha de uma mulher trans.

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