A cacauicultura baiana enfrenta um dos momentos mais delicados das últimas décadas. Em apenas um ano, o preço da arroba do cacau despencou mais de 70%, provocando apreensão e prejuízos significativos aos produtores rurais do estado, especialmente na região sul da Bahia.
Se há um ano a arroba do cacau comercializada em Ilhéus era vendida, em média, a R$ 803,69, atualmente o valor gira em torno de R$ 155,00. A queda abrupta comprometeu o fluxo de caixa de centenas de propriedades e ameaça a sustentabilidade de pequenos e médios produtores, que haviam se reorganizado financeiramente diante do cenário de valorização vivido em 2024.
Segundo dados do mercado internacional, o consumo global de cacau recuou de 5 milhões para 4,25 milhões de toneladas entre 2024 e 2025 — uma redução de 750 mil toneladas. No mesmo período, a produção mundial alcançou 4,8 milhões de toneladas, gerando um superávit estimado em aproximadamente 500 mil toneladas. Esse excedente pressionou os preços para baixo nas principais bolsas internacionais.
O mercado internacional do cacau já opera nos níveis mais baixos desde 2023, refletindo um cenário de desaceleração da demanda, estoques elevados e retração na indústria moageira. A combinação entre consumo em queda e produção acima da demanda acentuou o desequilíbrio entre oferta e procura.
Na Bahia, estado que historicamente ocupa posição estratégica na produção nacional de cacau, o impacto é direto. Muitos produtores investiram na modernização das lavouras e no aumento da produtividade durante o período de alta. Agora, enfrentam dificuldades para honrar compromissos financeiros, custear insumos e manter empregos nas propriedades.
Representantes do setor avaliam que, caso o cenário internacional não apresente reação nos próximos meses, poderá haver retração na área plantada e adiamento de investimentos, com efeitos em toda a cadeia produtiva — do campo à indústria de chocolate.
A crise atual reacende o debate sobre políticas de proteção ao produtor, mecanismos de hedge e diversificação de mercados. Para os cacauicultores baianos, no entanto, a preocupação é imediata: sobreviver a uma das quedas mais severas de preço já registradas em tão curto espaço de tempo.

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