Justiça
Homem é condenado na Bahia por cortar o próprio pé para tentar receber seguro de R$ 1,5 milhão
De acordo com os investigadores, não houve assalto, sequestro ou tortura. A apuração concluiu que Vanderley teria planejado toda a ação com o objetivo de obter indenizações de seguros contratados semanas antes do suposto crime

Um caso que chamou a atenção pela complexidade e pelo grau de planejamento teve seu desfecho definitivo na Justiça baiana. Quase sete anos após alegar ter sido vítima de um sequestro seguido de tortura, o servidor público Vanderley dos Santos Gomes teve confirmada a condenação por estelionato após a Justiça concluir que ele simulou o crime e amputou o próprio pé para tentar receber indenizações milionárias de seguradoras.
O episódio ocorreu em agosto de 2019, no município de Cruz das Almas, no Recôncavo Baiano. Na época, Vanderley, então com 26 anos e funcionário da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), afirmou ter sido abordado por dois homens armados, forçado a entrar em um veículo e levado para uma área rural. Segundo seu relato, os criminosos teriam roubado seus pertences e, antes de abandoná-lo, amputado seu pé direito.
A versão mobilizou autoridades e gerou forte repercussão. No entanto, as investigações conduzidas pela Polícia Civil e pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA) apontaram uma realidade completamente diferente.
De acordo com os investigadores, não houve assalto, sequestro ou tortura. A apuração concluiu que Vanderley teria planejado toda a ação com o objetivo de obter indenizações de seguros contratados semanas antes do suposto crime.
As investigações revelaram que, apenas seis semanas antes do episódio, o servidor havia firmado quatro contratos de seguros de vida e acidentes pessoais. A primeira apólice foi contratada junto à Tokyo Marine, em 17 de junho de 2019, prevendo indenização de R$ 800 mil em caso de invalidez permanente. Dois dias depois, em 19 de junho, ele firmou novo contrato com a Allianz Seguros, que previa pagamento de R$ 400 mil. Somadas às demais apólices, as indenizações poderiam alcançar cerca de R$ 1,5 milhão.
Para a acusação, a proximidade entre as contratações e a suposta ocorrência foi um dos elementos que demonstraram a intenção de aplicar o golpe.
O caso passou a ser tratado como uma tentativa de fraude contra as seguradoras e ganhou contornos inéditos no Judiciário brasileiro. Segundo registros da investigação, já haviam sido identificadas situações envolvendo mutilação de dedos para obtenção de indenizações, mas não existiam precedentes conhecidos de amputação de um pé e parte da perna com a mesma finalidade.
A primeira condenação foi proferida em 2024, quando Vanderley foi sentenciado a dois anos de reclusão pelo crime de estelionato. A defesa recorreu da decisão, mas o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) manteve integralmente a sentença em 2025.
Com o trânsito em julgado da ação, não cabem mais recursos. Em maio deste ano, Vanderley foi intimado para cumprir a pena, encerrando definitivamente um dos casos mais incomuns já analisados pela Justiça brasileira envolvendo tentativa de fraude em contratos de seguro.
A conclusão do processo reforça o entendimento das autoridades de que toda a narrativa apresentada em 2019 foi construída para justificar o pedido de indenizações milionárias, que acabaram sendo negadas após a descoberta da fraude.
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